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Josephine Hilgard trouxe importantes descobertas ao campo da Psicogenealogia; dentre elas, especialmente, o fenômeno chamado “Síndrome de Aniversário”. Em seu trabalho, ela realizou análises sobre como os eventos marcantes — positivos ou traumáticos — tendem a ser “comemorados” ou revividos, inconscientemente, na mesma época do ano; repetindo padrões que podem permanecer por gerações.
Seu estudo sobre as “datas comemorativas” trouxe luz à necessidade de reconhecimento consciente desses momentos, permitindo a ressignificação dos ciclos de dor; dando um novo sentido aos padrões repetitivos que afetam as dinâmicas familiares.
“No seu livro Aïe mes aïeux, Anne Ancelin Schützenberger refere-se a um estudo estatístico, realizado pela Dr.ª Josephine Hilgard e publicado em 1961, que confirma a sua intuição de que “o inconsciente tem boa memória”.
Josephine Hilgard (1953): “Reações de Aniversário nos pais precipitadas pelos filhos”, (Estudos de 1952 a 1989), citado no livro “Aïe mes Aïeux” de Anne Ancelin Schützenberger.
Nesse estudo estatístico, a Dr.ª Josephine Hilgard afirma que o início da psicose, na idade adulta, pode estar ligado à repetição familiar de um evento traumático. Esse tipo de repetição é chamado de “Síndrome do Aniversário” ou “Síndrome da Repetição”.
Protocolo de Estudo da Dr.ª. Hilgard
A Dr.ª Hilgard fez um estudo sistemático sobre as internações ocorridas em dois hospitais californianos, entre 1954 e 1957; uma análise de 8.680 pacientes. Ela analisou os prontuários de pacientes com mais de 50 anos e de pacientes com diagnóstico de alcoolismo, de doenças orgânicas e de personalidades psicopatas. Depois, considerou os casos de 2.402 pacientes: 3/5 com diagnóstico de esquizofrenia; 1/5, de maníaco-depressivo; 1/5, de “psiconeurótico”.
Dentre os 2.402 pacientes que foram analisados, Hilgard considerou, apenas, os casos daqueles cuja primeira admissão foi feita, após o casamento, a paternidade/maternidade e a perda de um dos pais, por morte; considerando a idade entre dois e dezesseis anos, como período da perda (desde que a data da perda do progenitor pudesse ser estabelecida, efetivamente, através de entrevistas, documentos, verificação de comprovativos e de registros hospitalares).
Para o estudo realizado por Hilgard, portanto, ela considerou 2.402 pacientes dentre os 8.680 internados. A redução foi feita, considerando a exigência da faixa etária e a situação parental de cada um; critérios rigorosamente seguidos que identificaram, como elegíveis para a sistematização, somente 184 pacientes: 37 homens e 147 mulheres.
Segundo Josephine Hilgard, essa amostra foi suficiente para um estudo detalhado e para demonstrar a realidade estatística da Síndrome do Aniversário. Durante as análises, ela notou coincidências geracionais e começou a estudá-las.
“Entre as mulheres doentes, a coincidência de idade (Síndrome do Aniversário) apareceu em 14 das 65 mulheres cuja mãe faleceu e em 9 das 82 mulheres cujo pai faleceu (…).”
No que diz respeito aos homens, essa correlação não pôde ser feita e a Dr.ª Joséphine Hilgard explicou que essa impossibilidade advém do fato de que os homens, mais frequentemente, tornam-se alcoólatras (essa patologia foi excluída do estudo).
Monique Bydlowski, psiquiatra-psicanalista e pesquisadora do INSERM, teria feito observações semelhantes, ao estudar as datas de partos, nas maternidades de Clamart e de Port-Royal, em Paris.
Dois exemplos de Síndrome do Aniversário, analisados por Hilgard:
Antes de o tema central da “Síndrome do Aniversário” ser descoberto, esses dois casos pareciam inexplicáveis e foram rotulados como esquizofrênicos.
Josephine Hilgard (1953): “Reações de aniversário nos pais precipitadas pelos filhos”, (Estudos de 1952 a 1989) citado no livro “Aïe mes Aïeux” de Anne Ancelin Schützenberger.
Primeiro caso:
“Marie Bancroft, mãe de uma menina de seis anos, Jenny, desenvolveu pneumonia, pleurisia e psicose. Quando Marie tinha seis anos, seu pai morreu de pleurisia e de pneumonia com meningite terminal” (…)
“A possibilidade de ter sido uma reação de aniversário (…) é indicada pelo fato de que os sintomas agudos surgiram, quando a filha atingiu a idade que Marie tinha, no momento da morte do pai; pelo fato, ainda, de que a pneumonia e a pleurisia também ocorreram; repetindo os sintomas de seu pai, durante sua doença terminal. Os sintomas psicóticos apareceram enquanto ela ainda estava no hospital, por causa da pneumonia.
“(…) em uma manhã, a paciente anunciou que tinha conversado com Deus e que ela era de essência divina (…) e (…) imortal.”
“(…) Ela cantava, assobiava, gritava. (…)”
“(…) No ano anterior à consulta, ela foi hospitalizada e recebeu três rodadas de terapia de eletrochoque (obteve, apenas, melhora temporária em sua psicose).”
“(…) Durante a psicoterapia, com Josephine Hilgard, (…) a Sr.ª Bancroft, frequentemente, conectava a experiência de sua filha à sua própria experiência quando criança: Jenny a viu ser levada em uma maca; como sua mãe a rejeitou, ela rejeitava Jenny. (…)”
“Ela estava fazendo muitas coisas que a própria mãe fazia, coisas que não eram nada parecidas com o que ela costumava fazer. (…)”
“Quando abordamos a sua doença atual, como uma repetição de algo que ela não conseguia enfrentar quando criança, houve claros ganhos terapêuticos.”
Segundo caso:
“James Carson, trinta e quatro anos, foi hospitalizado com queixas de dores de cabeça intoleráveis. Isso ocorria há mais de quatro anos, (…) chegando ao ponto de James tentar o suicídio, tomando 50 comprimidos de Fenobarbital. Quatro anos, a mesma idade que ele tinha, quando o pai morreu, repentinamente, de gripe. (…)”
“Quando o filho de James nasceu, James mudou de emprego. Ele era balconista, em uma loja de departamentos, e foi trabalhar como investigador criminal na polícia privada. (…) Quando seu filho tinha quatro anos, ingressou no departamento de polícia ferroviária, na empresa onde seu pai trabalhou (mesmo tendo jurado que não faria isso).”
“James estava em uma situação considerada desesperadora, com alucinações e desejo homicida e suicida. Depois da Psicoterapia, quando lhe foi apresentada a hipótese da Síndrome do Aniversário da doença, sentiu-se muito melhor, (depois de exclamar: “Merda! Se o meu pai não tivesse morrido, eu não estaria nessa bagunça!).”
(…) “Sabe, isso me lembra que meu pai teve um filho e uma filha e eu tenho um filho e uma filha.”
“(…) Em algum lugar, tenho a sensação de que ele, meu pai, era eu e que eu era ele.”
O aspecto de incorporação da identificação com o pai morto fica mais evidente, ainda, quando ele fala sobre as dores e o inchaço que sentia no estômago, como se houvesse algo, um cadáver, dentro dele.
“Inicialmente, aparentemente, os sintomas apareciam sem causa. Depois de compreendidos os episódios centrais da manifestação sintomática, o resto do material clínico se encaixou.”
“(…) Uma das razões por que casos desse tipo não são reconhecidos, está no fato de que a figura central – uma criança pequena que não é levada em consideração – é quem fornece as chaves para explicar a doença ou as dificuldades dos pais.”
Para ambos os pacientes, foram anotadas duas idades. Inicialmente, a idade da primeira internação hospitalar e, posteriormente, a idade hipotética da Síndrome do Aniversário, ou seja, a idade em que o/a paciente teria se ‘o filho mais velho tivesse a idade que ele/ela tinha, na época da perda do pai’.
As correlações encontradas pela Dr. Hilgard e por sua equipe indicam que não pode ser acaso: a Síndrome do Aniversário ocorre com mais frequência do que o esperado.
Segundo a Dr. Hilgard, a Síndrome do Aniversário é, portanto, demonstrada estatisticamente.
Infelizmente, foi encontrado um número demasiado pequeno de homens que atendesse aos critérios estabelecidos por Hilgard, para análise estatística; no entanto, foi um número suficiente, para indicar uma tendência semelhante entre os homens que perderam os seus pais, embora não tenha havido uma quantidade, estatisticamente significativa, nesse estudo, em relação à perda do pai do outro sexo.
Por que essa diferença entre homens e mulheres?
Para a Dr.ª Hilgard, a menor ocorrência de casos de desencadeamento de psicose em homens é explicada pelo fato de que os homens têm mais flexibilidade de papéis e diversas possibilidades de escolha do que as mulheres, na sociedade e na vida; e pelo fato, ainda, de que muitos homens escolheram, em caso de dificuldade, um refúgio “na garrafa”, ou seja, no alcoolismo.
“O alcoolismo é uma alternativa, além da psicose, para responder a vários sentimentos conflitantes.” criado pela chegada de um bebê em casa.”
Um dos pontos importantes da investigação feita por Hilgard foi, portanto, a identificação de uma “Síndrome do Aniversário”, complementada pelo “aniversário duplo” ou “aniversário sucessivo”, observados no caso de uma mãe, com dois filhos, que sofria de depressão; manifestou um episódio psicótico, quando cada uma das crianças atingiu, sucessivamente, a idade que ela tinha quando perdeu a mãe.
Hilgard e Newman relatam outros exemplos clínicos em seus artigos de 1959 e de 1961.
Pesquisas feitas sobre a perda da mãe, internada por psicose, mostraram o mesmo fenômeno do aniversário, quando a filha atingiu a idade da internação da mãe.
HILGARD, Josephine; NEWMAN, Martha. “Aniversário em Doença Mental” Psiquiatria, 1959; “Evidência de gênese funcional em doenças mentais: esquizofrenia, psicoses depressivas e psiconeuroses.” J. Nerv. [&] Menção. Dis., 132:3-16, 1961.